sexta-feira, 30 de julho de 2010

Xeque-mate

Num dia comum, em um lugar qualquer, eu a avistei. Despretensiosamente ela estava ali. Pequena, fria e perfeitamente perigosa.

Várias pessoas devem ter passado sem a ela notar, mas a mim foi instantâneo. Sua presença me fez parar, esquecer de tudo que tinha em volta por alguns instantes. Ainda paralisada me vinham várias memórias, lembranças. E eu poderia permanecer inerte em meus pensamentos, porém algo me fez voltar ao real.

- A senhora deseja mais alguma coisa? - Ouvi numa voz de fundo, quase que inaudível.

- Quanto custa? - Perguntei de forma rápida. Não queria saber quanto custava. Aquela mulher jamais saberia calcular o valor que aquilo tinha para mim.

Então, ainda submersa, eu via um trailer de cenas rápidas de como aquela coisinha agia em minha vida. Tirava-me da agonia e me levava para a satisfação de forma inacreditável. Mas também me tirava à atenção, a paz. Fazia-me sentir uma mera súdita diante dos poderes que tinha sobre mim, fazia-me menor que ela mesma. Trouxe problemas, dores, medos. Danos quase que irrecuperáveis.

Com o receio que se tem ao tocar em algo desconhecido e aparentemente duvidoso, eu a toquei. Mas como se queimasse, tirei a minha mão rapidamente.

Eu não a queria. Não precisava mais, tinha certeza. Não iria mais cair em seus golpes. Difícil demais foi para me reerguer e não deixaria mais que ela me derrubasse.

- A senhora vai levar? - Perguntou impacientemente a moça do caixa, fazendo-me voltar.

- Não. Eu não preciso disso. - Respondi com vigor.

E ao sair da loja, falei mentalmente para aquela que ficou para trás: Eu venci você.



Texto aberto para as mais diversas interpretações.

5 comentários:

  1. Fantástico!! Muito criativo, adoro este jogo de palavras de falar sem dizer, e ainda assim se fazer entender. Muito bom! Parabens!

    http://orasbolotas.blogspot.com/

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  2. Ai, eu me arrepiei muito.
    Meu Deus, não consigo explicar, eu juro que me arrepiei.
    Adoro esse clímax, o poder da palavra não dita.
    Até agora tenho dúvida do que seja.
    Uma carteira de cigarros talvez?

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  3. O teto é seu?? Muito bom! Aguardo sua visita. Vou segui-la e espero o mesmo. Beijos!!

    João Lenjob.

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